MAPEAMENTO DOS BOIS DA REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE
A tradição do bumba-meu-boi se constitui numa das mais importantes manifestações da cultura pernambucana, ainda que encontremos similares de festejos do boi em diversas partes do Brasil e do mundo. No Recife, especialmente, a tradição guarda singularidades que tornam a tradição local uma peculiaridade da cultura pernambucana e por isso mesmo se constituiu como foco de uma investigação que buscou compreender a realidade atual dos grupos de bumba-meu-boi da Região Metropolitana do Recife[1].
O escritor e dramaturgo Hermilo Borba Filho se constitui num dos mais importantes pesquisadores a registrar elementos da tradição do bumba-meu-boi pernambucano. Em obras como Espetáculos Populares do Nordeste (BORBA FILHO, 2007[2]) o autor registrou características e elementos da tradição que em muito ajudam, brincantes e pesquisadores contemporâneos, a pensar, fazer e manter viva a tradição do bumba-meu-boi.
Na tradição do boi pernambucano são encontrados elementos históricos, críticos e imaginários que em muito representam a realidade social brasileira de tempos passados. Logo, estórias, personagens, lendas e loas são articuladas para representar a festa do boi, personagem que se constitui num elemento central da tradição.
Na Região Metropolitana do Recife são encontrados, diferentes grupos de bumba-meu-boi que contribuem para manutenção da tradição ainda que suas realidades sejam totalmente desconhecidas. Estes grupos encontram nos ciclos festivos pernambucanos (especialmente no Carnaval e Natal) espaços e momentos de celebração à tradição. Estes grupos, que em geral se encontram nas periferias da RMR, mobilizam artistas populares e colaboram para movimentação da economia e do turismo.
O desconhecimento a respeito dos grupos de bumba-meu-boi, sobretudo no tocante à realidade técnica, social, econômica, política e artística dos grupos de bumba-meu-boi despertou a necessidade de realização de uma pesquisa que revelasse a realidade dos grupos de bumba-meu-boi da RMR. A pesquisa partiu, do seguinte problema: onde estão e como sobrevivem os grupos de bumba-meu-boi da RMR?
A hipótese de trabalho propunha, que a maior parte dos grupos de bumba-meu-boi da RMR estão situados nas áreas periféricas dos municípios da RMR e sobrevivem com imensas dificuldades de ordem financeira, técnica e social.
A realização da pesquisa contou, pois, com a aplicação de questionários e visitas aos espaços de funcionamento dos grupos entrevistados por meio das quais foi possível conhecer as realidades in loco e produzir um banco de dados de vídeos e fotografias. Além disso, foi possível coletar depoimentos dos mestres e brincantes da tradição do bumba-meu-boi que se constituirá como parte da presente pesquisa.
Vale destacar que ao longo do processo de investigação foram encontrados empecilhos de diferentes ordens, tais como: a pandemia da COVID-19 e os respectivos decretos estaduais e orientações sanitárias que previam distanciamento social e isolamento como estratégia de combate à pandemia; também foram observadas resistências por parte de alguns grupos, resultado de questões políticas internas do próprio movimento cultural, que acabou por impedir com que a pesquisa tivesse chegado a mais grupos de bumba-meu-boi da região.
Ainda assim, a pesquisa conseguiu chegar a um conjunto de 12 grupos de bumba-meu-boi em três municípios da Região Metropolitana: Olinda Jaboatão e Recife. A pesquisa foi realizada ao longo dos meses de janeiro, fevereiro e março de 2021, contando com a participação de quatro pesquisadores. Destaquemos que os pesquisadores ora envolvidos neste processo investigativo possuem estreitas relações com a tradição do bumba-meu-boi e com a cultura popular. Além disso, três destes pesquisadores possuem ligações com atividades acadêmicas, a saber, dois docentes de universidades públicas pernambucanas e um discente.
O processo de tabulação e análise dos dados buscou compreender a realidade a partir dos discursos e informações prestadas pelos grupos investigados, por isso mesmo a pesquisa se constitui do tipo qualitativa e os resultados são apresentados buscando revelar as realidades dos grupos investigados apontando, pois, similaridades e peculiaridades de cada situação.
A presente pesquisa foi financiada com recursos da Lei Aldir Blanc por meio da Secretaria de Cultura de Pernambuco.
A RMR é constituída por 14 municípios pernambucanos, com uma população de aproximadamente de 4 milhões habitantes (IBGE, 2010) e uma área total de 3.216 Km². A maior parte da população sobrevive em áreas periféricas contando com toda as problemáticas típicas deste tipo de espaço social.

Porém, são nestes espaços onde sobrevive a maior parte dos grupos de cultura popular pernambucanos. Os grupos de bumba-meu-boi, não diferente, também se fazem presentes nestas áreas e se constituem em espaços de resistência e de promoção da cultura para comunidades onde o Estado e as políticas de cultura se fazem ausentes.
A pesquisa revelou cenários intrigantes quanto ao funcionamento dos grupos de bumba-meu-boi da RMR. Um dos aspectos é que na totalidade dos grupos investigados, os mesmos não possuem sede própria, logo mantendo as atividades a partir da sessão de espaços domiciliares, na maior parte das vezes, residências de seus presidentes e fundadores.
Agradecemos aos grupos de bois e seus respectivos mestres e mestras, ao qual, com a suas disponibilidades e abertura, possibilitaram a realização desta pesquisa e registro. O nosso afetuoso abraço!!!
[1] Compreende 14 municípios: Jaboatão dos Guararapes, Olinda, Paulista, Igarassu, Abreu e Lima, Camaragibe, Cabo de Santo Agostinho, São Lourenço da Mata, Araçoiaba, Ilha de Itamaracá, Ipojuca, Moreno, Itapissuma e Recife.
[2] BORBA FILHO. H. Espetáculos Populares do Nordeste. 2. Ed. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Ed. Masangana, 2007.
